quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Possível último adeus

Minha pequena
Eu não sei escrever
Nota-se pelos papéis rasgados
E isso é só mais um defeito
Pra minha lista sem fim

Mas pequena
Eu sei que amo
Amo de encher os olhos
De botar os lábios a dançar
Amo de querer sorrir
Só por saber que amo

Eu arrumo todas as malas
De tudo em tudo não me sobra nada
Vivo alheia a todas as coisas
Sou minha única e própria aliada
Sou aliada de quem não deveria ser

Sei da prosa e da narrativa
Só não sei de poesia
Porque poesia é coisa de gente grande
Grande no coração
E de coração eu também não sei nada

Pequena, ouça
Eu me vou, prometo que sim
E não irei voltar, prometo que não
De pesos já lhe basta a vida

Mas viva pequena, viva!
Te deixo nas mãos dos deuses
Porque nas minhas tu se sufoca
E de sufoco já lhe basta a vida

O mundo te merece, pequena
E de pequena, tu só tem (tinha) eu
Porque você é grande, pequena
Tão grande que tive que lhe deixar
Por não suportar tanta grandeza

Vou viver só, pequena
Porque só todo mundo é
Uns tem com quem compartilhar
E tua lembrança é companhia suficiente

Deixei as chaves na mesa
E vou tentar me dilatar
Pra ver se te guardo aqui dentro
Pedaço por pedaço
Porque amor ainda é pequeno
Praquilo que eu tenho (tinha) a te oferecer

Então me diz, pequena
Como é que eu fui me perder?
É tu que me conhece
É tu que me tem por inteira
Então me diz, pequena!

Vou-me embora, pequena
Levo tudo que sobrou
Daquele nada que eu tinha
E de pequena tu não tem nada!
Só a saudade e a tristeza

Adeus, pequena
(É assim que se encerra?)
E de pequena tu ainda me tem
Adeus?

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