- O modo como o sol ardia no meu rosto, e mesmo assim eu me recusei a sair de onde eu estava. Ardia muito, chegava a incomodar, e eu me testava. Até onde aquele sol iria arder? Ardeu muito, e eu ri demais.
- Como eu chorei enquanto ouvia A Wolf at the Door. Não lembro o porquê, talvez nem tivesse razão. Mas eu chorei, descontrolada. Não me preocupei com meu rosto, não me preocupei em ser fraca perante aos outros, eu chorei muito, muito.
- O quarto solitário com duas camas, e várias fotos coladas na parede. E Little Girl, do Julian Casablancas, e Bird Song, da Florence and The Machine. E o quarto azul, com muita solidão, muita.
- Quando amanhecia no domingo e eu via o dia nascer completamente. E eu me sentia estranhamente bem, como nunca havia me sentido antes. Há dois anos atrás, eu era um lixo.
- O modo como eu me deprimi e deprimi a todos, na mesa da cozinha, no fim de uma quinta feira. O céu estava lindo, mas eu estava na cozinha deprimida, e todos estavam também. Na mesa da cozinha, a de mármore.
- Quando eu inventava minhas próprias histórias porque eu ainda não sabia ler, e era bom inventar uns romances. Eu nem sabia ler.
- A tarde de domingo, a rua estava calma e batia um vento muito fresco. E a gente ria muito, nem lembro o motivo. "Eu nunca me senti tão feliz. Eu nunca vou ser feliz desse jeito". E não fui.
- Mais de uma hora, em um silêncio que não era de maneira alguma desconfortante.
- O modo como ela ria e dizia que eu não estava nem perto de ter uma paixão de verdade. E talvez eu não estivesse mesmo. Mas doeu, mesmo assim. Mas me senti confortável.
- Quando eu devorei aquele livro e fiquei com os personagens, a história e as cenas na cabeça por quase um mês. Eu me recusava a acreditar que aquele livro tinha acabado.
- Fiction, a fumaça, e o sol se pondo.
- Como eu me deitei no palco, fechei os olhos por um tempo e abri rapidamente, vendo todos aqueles refletores na minha direção. E repeti isso por várias e várias vezes. A sensação de alguém que está a beira da morte e é rapidamente ressucitado, várias e várias vezes. Os olhos abrindo repentinamente.
- O jeito que eles tocavam Mistérios do Planeta, na barraca ao lado. Eu poderia morrer ali. Eu me senti abraçada, mesmo não estando ninguém ao meu lado, muito menos me abraçando.
- Quando eu acordei ela no meio da noite e ela me explicou várias coisas sobre anatomia e astrologia, das quais não me recordo agora. Eu acordei ela várias vezes durante a noite, durante a minha vida.
- A corrida de carrinhos, em que eu fiz questão de colocar Temporal pra tocar, pra poder colocar emoção no momento.
- Quando eu ganhei minha guitarra. Eu tinha acabado de chegar da casa da minha amiga e quando entrei no quarto, a guitarra estava em um pedestal, acompanhada de um pedestal de microfone. Eu chorei, e eu só tinha nove anos.
- Quando minha mãe estava prestes a sair e eu a enchi tanto, que ela finalmente me ensinou como se lia cifras e me passou duas notas pra tocar no violão. O violão era muito maior do que eu. Eu implorei demais.
- A minha própria loja de cartões personalizados. Eu os fazia com glitter e papel colorido, em cima de um baú muito velho, e nem lembro o que eu colocava neles.
- Quando eu passei uma tarde inteira ouvindo o disco dos Secos & Molhados, repetindo todas as músicas várias vezes.
- Quando ela gritou "NÃO!" tão alto que ele entalou na cadeira e todo mundo assustou, apesar de rir muito.
- Quando todo mundo dormiu em casa.
- Quando eu prometi que eu jamais encontraria outra pessoa e ela também prometeu, e passamos uma noite inteira falando da importância que uma tinha na vida da outra. E nos demos conta que já eram 5 horas da manhã, e o irmão dela ainda não tinha chegado. Eu era muito ingênua.
- Fiquei submersa na piscina, até não aguentar mais, e subi rapidamente pra superfície. E eu aumentava o meu limite o tempo todo, indo cada vez mais fundo. Ficando submersa por um longo tempo, até voltar roxa. Eu não cheguei perto da morte.
- Só de pensar naquilo, o meu estômago já revirava. Eu sentia tanta falta que as dores se tornavam físicas. Nunca mais senti isso, infelizmente.
- A raiva e a saudade que aumentavam cada vez mais. "Eu mudei sua vida, porra! Não sei se mudei pra melhor ou pra pior, mas eu mudei! Você não pode ignorar isso!" Acho que parte de mim ainda sente muito a sua falta. Acho que na verdade eu quero muito sentir sua falta. É possível sentir saudades de se ter saudade?
- O modo em que eu segurei o choro quando ela gritou comigo, sem razão aparente. De certo modo, eu provoquei. Não que não fosse uma reação inesperada da parte dela, mas foi uma reação inesperada de minha parte. E ela não foi rude (não do modo que ela costuma ser), mas aquilo me provocou uma angústia, e eu tive que me segurar enquanto me balançava.
- A frieza com que ela passou do meu lado. Eu não sou uma pessoa tão ruim assim, juro que não sou. Uma pena que ela não saiba disso.
sábado, 6 de outubro de 2012
Raio X (06/10/12)
Atualizado na medida em que as radiografias vão saindo.
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