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| "Wakey wakey, rise and shine It's on again, off again, on again" (07h50 da manhã, sexta feira) |
Por mais estranho que seja pensar sobre isso, nós somos apenas dois olhos. Temos milhares de células, milhares de glóbulos vermelhos, vários órgãos e muito sangue correndo dentro do nosso corpo, mas no final, não passamos de dois olhos. Dois olhos que anseiam na busca de algo para se sustentarem, algo para fazer valer a pena todo o tempo gasto observando as trilhões de coisas que se passam em sua volta em apenas um segundo. Dois olhos que sorriem, choram, gritam, se acalmam, se fecham e se abrem contemplando o ritmo frenético da observação constante e diária durante a vida que nos permeia. Dois olhos que se eximem de ficarem parados enquanto o dia nasce e morre, enquanto as plantas nascem e morrem, enquanto os fetos nascem e morrem, na desgraça de seu próprio ser. Dois olhos - e apenas dois - que não fazem nada além de se sustentar das visões etéreas que recebem durante a vida.
Os nossos dois míseros olhos não são o suficiente para receberem toda a informação que nos rodeia durante o nosso caminho. Nosso corpo é forte, e embora toda a nossa estrutura óssea seja forte o bastante para aguentar toda a carne que nela se sustenta, ela não é forte o bastante para absorver as bobeiras do dia a dia que uma hora ou outra, se tornam essenciais.
Durante as caminhadas matinais, me deparo com os milhares de olhos que correm pela cidade ainda cinza devido à ausência do sol. Olhos pesados com o mesmo ar de irritação e tédio, quase não abrem. Os estabelecimentos abrem lentamente, as nuvens se abrem no infinito azul acima de nós (e pensar que muitos ainda perdem tempo olhando para o cinza das calçadas e sarjetas) e os olhos vão se abrindo lentamente, acompanhando o ritmo da cidade.Pra que fechar os olhos e entrar em estado de sono com tanta coisa acontecendo ao nosso redor?
A atmosfera vai se adequando às formas que a cidade toma enquanto ela nasce no novo dia. Os ônibus carregando os corpos cansados, os corpos cansados carregando-se na caminhada na avenida, os corpos vivos se rastejando até suas devidas posições para o espetáculo do nascimento da sexta feira que lhes aguarda. Os carros aceleram e os olhos arregalam. Uma troca de olhares, de "bom dia" frívolos e bocejos mais sinceros do que seus próprios movimentos se inicia quase que automaticamente.
Lentamente, o ar frio e úmido se torna aquecido, até porque já são quase nove horas da manhã e a cidade já abandonou o aspecto cinza pra adotar um falso aspecto ensolarado que engana à todos que passam. Os olhos agora trabalham para captar todos os raios de sol, todos os outros olhares, todos os carros passando, todos os cafés que consumiram e todo e qualquer tipo de movimento estranho e usual que passem diante de seus olhos. O dia nasceu completamente, a cidade acordou perfeitamente e os olhos retornaram em sua busca infinita por algo que lhes façam bem.
A cidade acordou, e eu, com os meu dois míseros órgãos, mal a vi se levantar. E logo estaremos todos novamente no mesmo repouso diário com os olhos fechados enquanto tantas outras coisas se renovam, se recriam, e ressurgem ao nosso redor.
E você ainda acha normal sermos apenas só dois olhos no meio da multidão?
The Kills - Goodnight Bad Morning

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