segunda-feira, 2 de julho de 2012

Who wants to sleep in the city that never wakes up? (29/06/12)

"Wakey wakey, rise and shine
It's on again, off again, on again"
(07h50 da manhã, sexta feira)

Por mais estranho que seja pensar sobre isso, nós somos apenas dois olhos. Temos milhares de células, milhares de glóbulos vermelhos, vários órgãos e muito sangue correndo dentro do nosso corpo, mas no final, não passamos de dois olhos. Dois olhos que anseiam na busca de algo para se sustentarem, algo para fazer valer a pena todo o tempo gasto observando as trilhões de coisas que se passam em sua volta em apenas um segundo. Dois olhos que sorriem, choram, gritam, se acalmam, se fecham e se abrem contemplando o ritmo frenético da observação constante e diária durante a vida que nos permeia. Dois olhos que se eximem de ficarem parados enquanto o dia nasce e morre, enquanto as plantas nascem e morrem, enquanto os fetos nascem e morrem, na desgraça de seu próprio ser. Dois olhos - e apenas dois - que não fazem nada além de se sustentar das visões etéreas que recebem durante a vida.
Os nossos dois míseros olhos não são o suficiente para receberem toda a informação que nos rodeia durante o nosso caminho. Nosso corpo é forte, e embora toda a nossa estrutura óssea seja forte o bastante para aguentar toda a carne que nela se sustenta, ela não é forte o bastante para absorver as bobeiras do dia a dia que uma hora ou outra, se tornam essenciais.
Durante as caminhadas matinais, me deparo com os milhares de olhos que correm pela cidade ainda cinza devido à ausência do sol. Olhos pesados com o mesmo ar de irritação e tédio, quase não abrem. Os estabelecimentos abrem lentamente, as nuvens se abrem no infinito azul acima de nós (e pensar que muitos ainda perdem tempo olhando para o cinza das calçadas e sarjetas) e os olhos vão se abrindo lentamente, acompanhando o ritmo da cidade.Pra que fechar os olhos e entrar em estado de sono com tanta coisa acontecendo ao nosso redor?
A atmosfera vai se adequando às formas que a cidade toma enquanto ela nasce no novo dia. Os ônibus carregando os corpos cansados, os corpos cansados carregando-se na caminhada na avenida, os corpos vivos se rastejando até suas devidas posições para o espetáculo do nascimento da sexta feira que lhes aguarda. Os carros aceleram e os olhos arregalam. Uma troca de olhares, de "bom dia" frívolos e bocejos mais sinceros do que seus próprios movimentos se inicia quase que automaticamente.
Lentamente, o ar frio e úmido se torna aquecido, até porque já são quase nove horas da manhã e a cidade já abandonou o aspecto cinza pra adotar um falso aspecto ensolarado que engana à todos que passam. Os olhos agora trabalham para captar todos os raios de sol, todos os outros olhares, todos os carros passando, todos os cafés que consumiram e todo e qualquer tipo de movimento estranho e usual que passem diante de seus olhos. O dia nasceu completamente, a cidade acordou perfeitamente e os olhos retornaram em sua busca infinita por algo que lhes façam bem.
A cidade acordou, e eu, com os meu dois míseros órgãos, mal a vi se levantar. E logo estaremos todos novamente no mesmo repouso diário com os olhos fechados enquanto tantas outras coisas se renovam, se recriam, e ressurgem ao nosso redor.
E você ainda acha normal sermos apenas só dois olhos no meio da multidão?

The Kills - Goodnight Bad Morning

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