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| (Drawing Hands - M.C. Escher, 1948) |
Nós nascemos. Viemos de dentro de alguém, e esse tal alguém nos criou. Nos criou a sua maneira, nos ensinou seus vários costumes e crenças, e é nesses tais alguém que iremos nos apoiar pelo resto da sua vida.
Durante a vida, nós mudamos, isso é fato. O cabelo muda, os olhos mudam (juntamente com os olhares), a estatura muda, as cores mudas, as crenças mudam e os costumes também. Porém, por mais que nós estejamos mudando constantemente durante nossa vida, a essência daquele que nos criaram se mantém guardadas em algum canto de nós mesmos.
Há situações em que você abandona quem realmente é para virar alguém que você não conhece. Seus trejeitos físicos continuam ali, são os mesmos desde que você nasceu (com algumas diferenças - isso é óbvio). Mas você se transforma completamente. Sua música preferida já não são as que você ouvia, seu filme preferido não é aquele que você assistiu mais de cinquenta vezes, e sua comida preferida já não é mais aquela que você costuma fazer todo final de semana. Você se tornou um outro alguém, e esse outro alguém é o você atual.
Já não existe aquela pessoa que cresceu em tal bairro, em tal casa, ouvindo tal coisa e acreditando em tal coisa. Tudo aquilo você deixou pra trás, assim como você ficou pra trás. Você nem faz ideia de quem é esse novo ser que você se transformou, mas seu único objetivo é carrega-lo e embalá-lo em seus braços como se este ser fosse sua criação. Como se esse ser fosse você.
Esse ser irá crescer e se alimentar da sua criação. Ele agora é você, e você precisa moldá-lo. Nas formações que você cria para esse novo ser que se apossa de você, você será o condutor-mãe-pai-família da nova criatura. Ela é nova, e você precisa adequá-la para o mais você que puder.
A criatura está pronta. Ela entra, os aplausos são recebidos. As luzes se acendem e se apagam, e a sua criatura vai tomando forma e conhecimento de onde ela está e a razão de ela estar ali do modo que está. Além de tudo, o seu ser agora faz total sentido e você sente que sua pequena criação agora está genial, melhor do que nunca.
Ele encanta a todos e todos se encantam com a criatura. Ela faz o que deveria ser feito, se apresenta da forma que deveria se apresentar e assim tudo termina. Todos de pé, por favor. A criatura cumpriu sua missão e agora é a hora de ser gratificada. Sorrisos, lágrimas e aplausos majestosos de pessoas que presenciaram a criatura em seu estado mais puro. Não a viram crescer e não a verão morrer. Apenas a viram em sua melhor forma, se apresentando da melhor maneira possível.
O teatro se evacua, as pessoas comentam saciadas o que presenciaram. Os sorrisos e as lágrimas ainda estão sendo absorvidas pela criatura.
E assim, em cima do palco, sozinha, gratificada, ela morre. Você se esforçou e sua criação morreu a partir do momento que as luzes se apagaram.
Agora é necessário ir embora antes das luzes voltaram, porque a sua criatura não deverá nascer outra vez.

