quinta-feira, 5 de julho de 2012

Quick, let's leave before the lights come on (06/07/12)

(Drawing Hands - M.C. Escher, 1948)

Nós nascemos. Viemos de dentro de alguém, e esse tal alguém nos criou. Nos criou a sua maneira, nos ensinou seus vários costumes e crenças, e é nesses tais alguém que iremos nos apoiar pelo resto da sua vida.
Durante a vida, nós mudamos, isso é fato. O cabelo muda, os olhos mudam (juntamente com os olhares), a estatura muda, as cores mudas, as crenças mudam e os costumes também. Porém, por mais que nós estejamos mudando constantemente durante nossa vida, a essência daquele que nos criaram se mantém guardadas em algum canto de nós mesmos.

Há situações em que você abandona quem realmente é para virar alguém que você não conhece. Seus trejeitos físicos continuam ali, são os mesmos desde que você nasceu (com algumas diferenças - isso é óbvio). Mas você se transforma completamente. Sua música preferida já não são as que você ouvia, seu filme preferido não é aquele que você assistiu mais de cinquenta vezes, e sua comida preferida já não é mais aquela que você costuma fazer todo final de semana. Você se tornou um outro alguém, e esse outro alguém é o você atual. 
Já não existe aquela pessoa que cresceu em tal bairro, em tal casa, ouvindo tal coisa e acreditando em tal coisa. Tudo aquilo você deixou pra trás, assim como você ficou pra trás. Você nem faz ideia de quem é esse novo ser que você se transformou, mas seu único objetivo é carrega-lo e embalá-lo em seus braços como se este ser fosse sua criação.  Como se esse ser fosse você.
Esse ser irá crescer e se alimentar da sua criação. Ele agora é você, e você precisa moldá-lo. Nas formações que você cria para esse novo ser que se apossa de você, você será o condutor-mãe-pai-família da nova criatura. Ela é nova, e você precisa adequá-la para o mais você que puder.
A criatura está pronta. Ela entra, os aplausos são recebidos. As luzes se acendem e se apagam, e a sua criatura vai tomando forma e conhecimento de onde ela está e a razão de ela estar ali do modo que está. Além de tudo, o seu ser agora faz total sentido e você sente que sua pequena criação agora está genial, melhor do que nunca. 
Ele encanta a todos e todos se encantam com a criatura. Ela faz o que deveria ser feito, se apresenta da forma que deveria se apresentar e assim tudo termina. Todos de pé, por favor. A criatura cumpriu sua missão e agora é a hora de ser gratificada. Sorrisos, lágrimas e aplausos majestosos de pessoas que presenciaram a criatura em seu estado mais puro. Não a viram crescer e não a verão morrer. Apenas a viram em sua melhor forma, se apresentando da melhor maneira possível.
O teatro se evacua, as pessoas comentam saciadas o que presenciaram. Os sorrisos e as lágrimas ainda estão sendo absorvidas pela criatura. 
E assim, em cima do palco, sozinha, gratificada, ela morre. Você se esforçou e sua criação morreu a partir do momento que as luzes se apagaram.
Agora é necessário ir embora antes das luzes voltaram, porque a sua criatura não deverá nascer outra vez.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Carta sem remetente (04/06/12)

Dedico o título da postagem à minha fiel escudeira Izabelli


Oi, amor!
Como cê tá? Tenho certeza que está bem. Você sempre está, sempre com o seu sorriso no rosto e olhos alegres. É assim que te conheci e é assim que quero te ver sempre.
Eu não sou muito carinhosa, você sabe. Não gosto de melação, odeio romantismo. Às vezes pareço até um moleque, mas felizmente (ou infelizmente?) não sou. Mas sei lá, às vezes me bate uma vontade de mostrar o que eu sinto. Eu também tenho sentimentos, até porque sou humana (infelizmente).
Eu gosto de você, sabe? Gosto muito, muito mesmo. Gosto de te olhar sorrindo, gosto de deitar contigo, gosto de cantar contigo (mesmo que você cante muito mal), gosto de usar o seu chinelo e sua camiseta de flanela preferida. Gosto também de roubar os seus cigarros pra retrucar os cigarros que você roubou de mim. Gosto de acordar cedo e ver a manhã se levantando enquanto você nem se ligou que o dia já começou. Gosto de ouvir você reclamar que eu demoro demais no banho. Gosto de ouvir você dizer que eu deveria parar de comer tanto chocolate (ok, não gosto tanto assim, mas acho fofo você se preocupar comigo). Gosto de sentar do teu lado, de mexer no teu cabelo, de te abraçar, de comprar presentes pra você. E gosto muito mais de quando você me dá presente. Gosto quando você me xinga, gosto MUITO de te bater. Gosto muito que nós sejamos mais amigos do que qualquer outra coisa. Ninguém diria que nós somos um casal. Às vezes até eu duvido que sejamos.
Gosto de assistir quatro filmes seguidos com você no mesmo dia (mesmo que três deles sejam ridículos e o outro eu já tenha visto umas milhões de vezes). Gosto de quando você alisa o meu braço, mesmo que eu fique meio arrepiada. Gosto também de quando você senta do meu lado e ouve Radiohead comigo, mesmo não sendo sua banda preferida. Mas e daí? Eu também não gosto da tua banda (nem sei o nome) e mesmo assim ouço com você.
O que eu mais gosto é quando você fica sem graça, fica sem saber o que dizer. Amo te deixar sem graça, amo te deixar com vergonha. Você é tímido, e eu gosto de você assim. Gosto de quando você não sabe como agir ou falar. Porque esse é o real você. Esse é o você que eu gosto.
Eu queria muito mesmo que você passasse um mês junto comigo, sem se separar. Porque assim eu ia me enjoar de você de uma vez. Porque é foda me enjoar de você, sabia? Cada hora você tá diferente, com uma barba diferente, com um cabelo diferente, com uma camiseta diferente, com uma música diferente. Cada hora você tá diferente, e eu gosto muito disso, cê sabe muito bem.
Espero ainda te abraçar bastante, te dar vários beijinhos e te socar bastante também. Espero ir com você em alguma loja de discos e sair de lá cheia de CDs novos. E camisetas também, por favor. Espero te xingar muito, porque eu adoro xingar.
Espero te conhecer um dia, e enviar essa carta pra você, porque sei lá, parece legal enviar uma carta romântica pra quem a gente gosta. Mas eu ainda não tive isso, e na verdade não tô tão preocupada assim em ter isso. Mas assim, se você quiser chegar mais cedo, fique a vontade. Sua carta já tá pronta.
Espero que você seja mesmo o remetente que tá faltando pra eu enviar essa carta.
Beijinho, se cuida. Diz pra sua mãe que ela é linda e que cozinha muito bem.
Te amo.

Cícero - Conversas de Botas Batidas

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Who wants to sleep in the city that never wakes up? (29/06/12)

"Wakey wakey, rise and shine
It's on again, off again, on again"
(07h50 da manhã, sexta feira)

Por mais estranho que seja pensar sobre isso, nós somos apenas dois olhos. Temos milhares de células, milhares de glóbulos vermelhos, vários órgãos e muito sangue correndo dentro do nosso corpo, mas no final, não passamos de dois olhos. Dois olhos que anseiam na busca de algo para se sustentarem, algo para fazer valer a pena todo o tempo gasto observando as trilhões de coisas que se passam em sua volta em apenas um segundo. Dois olhos que sorriem, choram, gritam, se acalmam, se fecham e se abrem contemplando o ritmo frenético da observação constante e diária durante a vida que nos permeia. Dois olhos que se eximem de ficarem parados enquanto o dia nasce e morre, enquanto as plantas nascem e morrem, enquanto os fetos nascem e morrem, na desgraça de seu próprio ser. Dois olhos - e apenas dois - que não fazem nada além de se sustentar das visões etéreas que recebem durante a vida.
Os nossos dois míseros olhos não são o suficiente para receberem toda a informação que nos rodeia durante o nosso caminho. Nosso corpo é forte, e embora toda a nossa estrutura óssea seja forte o bastante para aguentar toda a carne que nela se sustenta, ela não é forte o bastante para absorver as bobeiras do dia a dia que uma hora ou outra, se tornam essenciais.
Durante as caminhadas matinais, me deparo com os milhares de olhos que correm pela cidade ainda cinza devido à ausência do sol. Olhos pesados com o mesmo ar de irritação e tédio, quase não abrem. Os estabelecimentos abrem lentamente, as nuvens se abrem no infinito azul acima de nós (e pensar que muitos ainda perdem tempo olhando para o cinza das calçadas e sarjetas) e os olhos vão se abrindo lentamente, acompanhando o ritmo da cidade.Pra que fechar os olhos e entrar em estado de sono com tanta coisa acontecendo ao nosso redor?
A atmosfera vai se adequando às formas que a cidade toma enquanto ela nasce no novo dia. Os ônibus carregando os corpos cansados, os corpos cansados carregando-se na caminhada na avenida, os corpos vivos se rastejando até suas devidas posições para o espetáculo do nascimento da sexta feira que lhes aguarda. Os carros aceleram e os olhos arregalam. Uma troca de olhares, de "bom dia" frívolos e bocejos mais sinceros do que seus próprios movimentos se inicia quase que automaticamente.
Lentamente, o ar frio e úmido se torna aquecido, até porque já são quase nove horas da manhã e a cidade já abandonou o aspecto cinza pra adotar um falso aspecto ensolarado que engana à todos que passam. Os olhos agora trabalham para captar todos os raios de sol, todos os outros olhares, todos os carros passando, todos os cafés que consumiram e todo e qualquer tipo de movimento estranho e usual que passem diante de seus olhos. O dia nasceu completamente, a cidade acordou perfeitamente e os olhos retornaram em sua busca infinita por algo que lhes façam bem.
A cidade acordou, e eu, com os meu dois míseros órgãos, mal a vi se levantar. E logo estaremos todos novamente no mesmo repouso diário com os olhos fechados enquanto tantas outras coisas se renovam, se recriam, e ressurgem ao nosso redor.
E você ainda acha normal sermos apenas só dois olhos no meio da multidão?

The Kills - Goodnight Bad Morning